A lenda das duas chaves

Na direção a Outeiro Seco, depois da aldeia, há uma nova rotunda com as duas chaves do brasão da cidade. Eu pensava que era tempo de vos contar uma das lendas da origem do nome da cidade de Chaves : a lenda das duas chaves (que simbolizam saúde e amor). Esta lenda é uma dessas histórias onde o amor supera todas as faltas e passa-se na época reota do poderio romana na Península.

Quando reinava o imperador Tito Flávio Vespasiano, as legiões romanas chegaram triunfantes à Ibéria, atravessando as regiões da Galiza e de Trás-os-Montes. Porque a terra era boa, fixaram-se nesta última província, começando a construir estradas e pontes. Ora, tendo os Romanos uma autêntica devoção pela água, grande foi a sua alegria quando descobriram «águas quentes jorrando da terra».

Construíram logo aquedutos e um grande tanque onde se iam banhar, conseguindo curas fantásticas por intermédio dessas águas medicinais. Tal foi a sua fama, que chamaram à cidade ali construída Aquae Flaviae. Tão progressiva se tornou, que o próprio imperador Tito Flávio Vespasiano colocou aí como procurador um seu primo, o jovem Décio Flávio, então comandante da Legião Sétima.

Certo dia, o cônsul Cornélio Máximo recebeu em Roma uma mensagem do jovem Décio Flávio, e achou por bem consultar sua filhaLúcia.
Era manhã ainda e o Sol estava quente. Envolta num manto leve que lhe ocultava o rosto, Lúcia encaminhou-se rapidamente para o aposento onde o pai a esperava. Mal a viu, o cônsul foi ao seu encontro:
— Lúcia, não ignoras decerto que o primo do nosso imperador, Décio Flávio, se encontra em Aquae Flaviae, uma nova cidade de que dizem maravilhas.
Lúcia baixou a fronte, para logo a levantar num assomo de energia. Respondeu, tentando serenidade:
— Bem o sei, meu pai. A última vez que vi Décio Flávio foi nas vésperas da sua partida, no palácio imperial.
Franzia as sobrancelhas a um rápido e angustioso pensamento. Perguntou aflita:
— Aconteceu-lhe alguma coisa?
O cônsul sorriu e serenou a angústia da filha:
— Não! Décio Flávio está cada vez melhor! A sorte acampa com ele. No entanto, mostra-se preocupado.
— Porquê?
— Preocupado contigo, minha filha!
Lúcia sentiu bater mais forte o coração.
— Comigo?… É grande honra para mim…
O cônsul voltou a sorrir. Lúcia procurava que o pai não a olhasse de frente, para não ver o seu enleio. Mas já o velho Cornélio se aproximava, obrigando-a a olhá-lo face a face. Perguntou:
— Lúcia! Que se passa entre os dois?
Cada vez mais embaraçada, a jovem mentiu:
— Nada, meu pai. Décio tem uma bonita carreira à sua frente. Merece uma mulher bonita… além de rica!
— E tu… não és formosa?
A jovem mordeu os lábios. Baixou de novo o olhar para que o pai não notasse o seu grande sofrimento. Depois, respondeu numa voz emocionada:
— O pai bem sabe que fui formosa! Mas hoje… com estas feridas na cara e nas mãos…
Calou-se. As lágrimas soltaram-lhe dos olhos e exclamou, chorando:
— Oh, meu pai! Porque me atormenta? Porque me fala em Décio Flávio e me obriga a falar da minha doença?
— Porque ele enviou-nos hoje um mensageiro.
A jovem deixou de chorar.
— Um mensageiro?… Para quê? Que diz ele?
Pausadamente, o cônsul apresentou um objecto que não pusera até então em evidência, e explicou:
— Décio manda-te de presente esta caixa forrada de seda e contendo duas chaves de ouro.
A jovem mostrou-se perplexa.
— Duas chaves?… Para mim?
— Sim, minha filha. São chaves simbólicas, segundo o mensageiro explicou.
A ansiedade da jovem Lúcia ia crescendo.
— Meu pai… mas… que simbolizam essas chaves?
— Saúde… e amor!
Lúcia levou uma das mãos ao peito, como se tivesse recebido uma pancada. As lágrimas voltaram-lhe aos olhos. A sua voz soou emocionada:
— Amor!… Amor, talvez, porque o amo desde que nos encontrámos numa tarde de corridas. Mas a saúde… a saúde… quem poderá oferecer-ma?
As lágrimas corriam pelo rosto chagado de Lúcia. O cônsul exclamou, firme:
— A saúde, oferece-ta Décio Flávio!
Ela meneou a cabeça.
— Não, ele não poderá ver-me assim! E eu não consigo curar-me!
O cônsul Cornélio acariciou um dos braços de sua filha. O seu estado de amargura enternecia-o.
— Ouve, Lúcia, quero que saibas tudo. Décio, na sua mensagem, oferece-me um lugar em Aquae Fluviae, para que assim tenhas a possibilidade de tomar os banhos dessas águas extraordinárias e encontres a cura para os teus males. Oferece-te, pois, as chaves da saúde… e do amor!
Ela voltou a menear a cabeça, sempre chorando.
O cônsul continuou:
— No entanto, se não quiseres sair de Roma, só terás que devolver-lhe essas duas chaves. O seu mensageiro parte amanhã, levando ou não essa lembrança que Décio Flávio te enviou. Decide, pois!
Lúcia mordeu os lábios, sem saber que dizer. Por fim olhou o pai.
— Não sei que pensar… Tem a certeza que Décio Flávio disse tudo isso?
— Queres ouvir o próprio mensageiro? Não te serve a minha palavra?
Lúcia caiu em si.
— Perdoe-me, meu pai! Nem sei o que digo!
— Porque choras, então?
Ela sorriu por entre as lágrimas.
— Porque Décio Flávio continua a pensar em mim!
— E isso é motivo de choro?
— Também se chora de alegria. Contudo…
— Contudo, o quê?
— Flávio merece melhor sorte! Já não sou a mesma que ele conheceu e amou!
— Recusas o seu auxílio?
Ela afligiu-se.
— Oh, não!
— Que digo, nesse caso, ao mensageiro?
Lúcia ficou uns momentos pensativa. Depois, resoluta, declarou:
— Pai! Diga ao mensageiro de Décio Flávio, que partiremos o mais rapidamente possível!

Alguns meses passaram. Obtida a necessária licença do imperador Vespasiano, Cornélio Máximo seguiu com sua filha para a então famosa Aquae Flaviae, uma das mais florescentes cidades do Império, na Península. Duas semanas depois de chegarem, Décio Flávio foi visitar os seus amigos, mas Lúcia recusou-se a aparecer. Ficando sós, Décio e o cônsul, este dirigiu-se amistosamente ao procurador.
— Muito agradeço, Décio Flávio, o teu convite e a honra da tua visita. Lúcia e eu jamais esqueceremos o teu gesto!
Décio sorriu.
— O que fiz não deve ser agradecido, pois foi no meu próprio interesse.
O cônsul olhou o seu visitante.
— Queres explicar-te melhor?
Décio respondeu num tom quase malicioso:
— Cornélio Máximo! Para um homem inteligente como tu não serão necessárias mais explicações. Bem compreendeste o que pretendi dizer.
Sorriu também o cônsul romano, e retorquiu no mesmo tom:
— E ao extraordinário Décio Flávio não será necessário dizer mais para que compreenda o meu propósito.
Décio riu com elegância e exclamou:
— Sempre o mesmo gracioso e prático cidadão!
Deu dois passos pelo aposento. Tornou-se subitamente sério e, voltando-se num movimento decidido, falou no seu ar conciso:
— Verifico que queres ouvir o que não cheguei a dizer senão na intimidade do meu pensamento: um pedido formal de casamento para tua filha Lúcia.
Cornélio concordou:
— É isso mesmo. Queria saber da tua boca se estás disposto a casar com ela agora… e livre de qualquer compromisso tomado anteriormente à sua doença.
Décio encarou o cônsul romano.
— Amo Lúcia e sempre a amarei! Ela vai curar-se, estou certo! Mas, seja qual for o resultado do tratamento, o meu pedido manter-se-á. Onde está ela?
— Recusa-se a aparecer enquanto não estiver curada.
— Pois diz-lhe que desejo falar-lhe imediatamente.
Nesse mesmo instante uma cortina do fundo abriu-se, e a jovem Lúcia entrou com o rosto velado. A sua voz era pouco firme ao dizer:
— Décio Flávio… aqui estou!
O jovem romano voltou-se. A sua surpresa era evidente:
— Lúcia! Porque trazes o rosto coberto por um véu?
— Porque ainda não estou bem.
— E porque não vieste logo?
— Porque não tencionava ver-te! Mas ouvi a tua voz… essa voz que cantava sempre dentro do meu peito as últimas promessas trocadas antes de partires… e não resisti à tentação de aparecer-te!
Ele agarrou-lhe os pulsos, pois as mãos estavam cobertas por ligaduras.
— Lúcia… minha Lúcia! Quantos banhos já tomaste desde que chegaste aqui?
— Seis.
— E sentes melhoras?
— Se as não sentisse, já teria regressado a Roma. Não me perdoaria, privar-te de uma mulher bonita! Devem existir por aqui muitas beldades desejosas de merecer-te!
Ele apertou-lhe os pulsos e murmurou:
— Bem sabes que és a mulher mais bela de Roma!
Ela tentou protestar.
— Exageras…
— Lembra-te de que o próprio imperador o dizia. Tu serás minha e só minha!
Ela meneou a cabeça, com aflição.
— Não, Flávio! Só quando estiver curada!
— O que será muito em breve!
E acariciando-lhe os cabelos através do véu:
— Faremos um grande festim e daremos largas à nossa felicidade!
A poucos passos, o cônsul Cornélio Máximo lembrou a sua presença:
— Bem… Já que se esqueceram de mim, aproveito para ir dar umas ordens.
Lúcia protestou:
— Pai, fique connosco! Décio Flávio é nossa visita…
Maliciosamente, o cônsul retorquiu:
— Décio Flávio fica bem entregue. Farás com dignidade as honras da casa a tão ilustre hóspede. Eu não me demorarei.
E saiu. Ficando sós, Décio Flávio tentou ver o rosto da jovem. Ela recuou apavorada:
— Não, Décio Flávio! Não quero que em ti fique a mínima recordação desagradável a meu respeito!
— Desejava tanto ver a luz desses teus olhos tão belos, que enchiam a minha alma!
— Não! Perdoa-me, mas pouco tempo faltará! Estou quase curada e a ti o devo!
— Pois seja, meu amor! Mas, pelo menos, permite que te procure com assiduidade. Preciso de ouvir a tua voz, já que me falta a luz do teu rosto!
— Ver-te e ouvir-te é o que mais ambiciono na vida. O teu amor por mim é parte da minha cura! E, já agora, deixa que te comunique quão feliz me tornou aquela caixa tão bonita, forrada de seda e contendo duas chaves em ouro: duas chaves simbólicas que dizem bem do teu carácter e da sorte que tive em ter-te agradado!
O jovem romano acariciou mais uma vez os cabelos da sua bem-amada e pediu:
— Lúcia, guarda essas duas chaves por toda a nossa vida!
Lúcia concordou:
— Assim farei! E se possível for… que elas fiquem por toda a eternidade contando à gente vindoura o que pode um verdadeiro amor!

The legend of the two keys

When driving out of the city towards the village of Outeiro Seco, there’s a roundabout, quite recent, with the emblem of Chaves. We can see two crossed keys (as Chaves in Portuguese means ‘keys’) laid on a block of marble. This reminds me of the famous legend of the two keys, a legend where the love surpasses all the mistakes.  According to this legend, one key represents the health and the other one, the love.

Duas Chaves

A Rotunda com as duas chaves em Outeiro Seco / The roundabout with the Emblem of Chaves, Outeiro Seco

Here comes the legend :

When the Emperor Titus Flavius Vespasianus ruled, the Roman legions arrived triumphant in Iberia, crossing the regions of Galicia and Trás-os-Montes. Because the land was good, they settled down in the region of Tras-os-Montes and began to build roads and bridges.

The Romans had a true devotion to water. Their joy was great when they discovered waters gushing from the earth. They immediately built aqueducts and a large tank where they could bathe, succeeding fantastic healing thanks to these medicinal waters. The reputation of these waters gave its name to the city: ‘Aquae Flaviae’ (which literally means water from Flavius, referring to the proficiency of the water as well as the name of the Empire family).

The city became so important that the emperor Titus Vespasian himself, named as the Procurator, his cousin, the young Decius Flavius, then Commander of the Seventh Legion.

One day, the Consul Cornelius Maximus received in Rome a message from young Decius Flavius, and thought it was right to consult his daughter Lucia. The Consul presented his daughter a silk-lined box containing two golden keys, which symbolizes health and love. In his message, Decius gives the possibility to Lucia to come to Aquae Flaviae and take the baths in these extraordinary waters and find a cure for her illness (her face and hands were full of wounds).

After a few months, Cornelius Maximus obtained the necessary permission from the Emperor Vespasian, and left with his daughter to the famous Aquae Flaviae, one of the most flourishing cities of the Empire, on the peninsula.

Two weeks after she arrived and received treatment, Lucia was already feeling better. She thanked Decius Flavius for that beautiful silk-lined box containing the two golden keys. The young Decius stroked the hair of his beloved and asked her:

-“Lucia, keeps these two keys for the rest of our lives”.

She replied: “I will, and if possible, may these keys stay forever and tell the next generations what true love can do”.

Duas Chaves_2

As duas Chaves, Outeiro Seco / The two crossed keys, Outeiro Seco

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